As palavras não são minhas. É uma citação do nosso mui ilustre Ministro da Administração Interna, quando questionado aqui há uns tempos sobre a prontidão dos meios para a época de fogos deste ano (Poderia até começar pelo facto de que temos uma “época de fogos”, tal e qual como temos uma “época balnear”, “época festiva” e afins… Parece-me de todo um paradoxo que possamos ver os incêndios florestais como uma época sazonal, que todos os anos se repete e como se nada pudéssemos fazer para os evitar ou combater mais eficazmente. Mas não, vou passar à frente e a outros tópicos, dentro do mesmo assunto…).

Ora, pelos vistos, a opinião do Sr. Rui Pereira é de que fez um trabalho excepcional. No entanto, tenho a ligeira sensação de que, ao recorrer da opinião prestada por alguns dos soldados da paz que diariamente suam (literalmente) as estopinhas nos combates ao fogos que lavram de norte a sul de Portugal, será quase sem contestação que se verifica o contrário do apregoado por tão venerável governante.

As corporações de Bombeiros Voluntários por todo o país continuam mal e porcamente equipadas. O treino dado ao elementos das mesmas é parco, e a sabedoria com que todos combatem cenários dantescos como os fogos em São Pedro do Sul advêm mais da experiência em incêndios passados, ou do instinto certeiro de alguns dos seus superiores imediatos. A logística operacional montada é inacreditavelmente amadora, com brigadas que não veriam agua fresca ou comida durante dias, não fosse a também indescritível força de vontade dos populares, na sua ânsia de salvar o que é seu, e muitas vezes, de outros.

As cameras de televisão mostram isto todos os dias, e Portugal fica pávido e sereno. Ver um bombeiro comunicar por telemóvel, que se presume o seu (o que aconteceu ao tão famigerado Sistema Integrado de Comunicações???) que desiste, não aguenta mais, que não vê agua ou comida durante um dia inteiro, é no mínimo desolador. No mínimo. Porque a minha reacção é mais a revolta.

Continua, enfim, a não existir uma estratégia nacional para esta catástrofe que assola anualmente Portugal. O Governo investiu (ou melhor: gastou, porque a palavra “investimento” requer o principio que de se tenciona ter retorno no dinheiro gasto) centenas de milhões de euros na aquisição de equipamento cuja eficiência é no mínimo duvidosa.

Tomemos de exemplo os Kamov Ka32, adquiridos à Russia. Não haja duvida de uma coisa: estes helicópteros têm tudo menos problemas de juventude. Foram desenhados ainda nos tempos da União Soviética, e são usados em diversas forças militares à volta do mundo para operações pesadas. Mas estão a ser pagos a peso de ouro. São lentos, difíceis de operar e a sua manutenção custa substancialmente mais que qualquer outro concorrente. Diz-se em surdina, em terras da vodka e do caviar, que a compra dos Kamov foi o preço a pagar pelo jogging do nosso Primeiro na Praça Vermelha. Não me admiraria.

Mas, sendo assim, porque não adquiriram igualmente alguns Canadair (ou um outro qualquer, porque existem mais construtores de “bombardeiros pesados”)? Porque motivo continuamos a alugar, a preços exorbitantes, equipamento que poderia estar afecto às nossas forças armadas? Porque não vai então o nosso Primeiríssimo fazer uma corridinha matinal a Toronto?

A Força Aérea Portuguesa ainda têm encaixotados, num hangar perdido algures, uns “kits” de adaptação para os C130 que os transforma também em “bombardeiro”. Achamos os nossos pilotos assim tão incompetentes que não os responsabilizamos com tal tarefa? Por outro lado, como se haveria de justificar a falta de fundos para manter a frota de Falcons a funcionar, mas ter os nossos Pumas (sim, ainda os temos a apodrecer algures…) e C130 a combater incêndios. Sem os nossos adorados Falcon, como viajaria o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros até aos destinos favoritos?

Ou porque carga de agua existe agora orçamento para adquirir uma frota nova de veiculos blindados para a proxima reunião Nato em Lisboa, mas não se consegue renovar a frota de auto-tanques dos Bombeiros? Se me disserem que os dignatários que nos visitarão precisam mesmo de proteção, então façam como os Estónios, e em vez de os comprarem, peçam um patrocinio à BMW. Não estou a brincar. Foi feito. E não tiveram de ficar com nenhum dos mais de 100 Serie 5 com que se andaram a pavonear em Tallinn.

A verdade é continuam a existir interesses para que este despesismo continue. E perante a escandaleira generalizada em que se encontra Portugal, já não compete ao povinho provar o que diz nos boatos. Agora, tal como Estado exige aos cidadãos no que se refere aos seus impostos, está na mão do Governo provar que está inocente.

Não bastam palavras eruditas ou discursos pomposos. Aceite-se o debate na sua essência. Em publico. Sem moderador. Ou como se diz lá em casa: uma discussão a sério.

Ponto final, paragrafo.

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