Portugal é um daqueles mistérios da evolução humana.

Nascido de uma desavença familiar, quebrou todas as regras da lógica ao se tornar uma potência mundial. Não por uma ambição desmedida de um qualquer regedor, mas pela necessidade de expandir um território que não existia. Deu novos mundos ao mundo, mais por acidentes de percurso, que por ingenuidade. Descobriu riquezas que não soube conservar. Desenvolveu tecnologias que outros souberam aproveitar. Influenciámos reinos e impérios, forjámos alianças, desenvolvemos culturas.

Mas tudo perdeu sem uma explicação lógica.

Enfim. Portugal é, tal como nos apelidam no futebol, o eterno candidato a qualquer coisa. Mas nunca passou disso. Do eterno candidato.

Para quem, como eu, teve a oportunidade de ir viver para fora do país por opção, acaba-se por ter uma visão um pouco desencantada sobre o assunto. Por muito amor à pátria que se queira ter, chega-se a determinados momentos onde remar contra a maré de interesses instalados, e da cultura do interesse próprio se revela uma tarefa árdua e sem resultados que se justifique tamanha trabalheira.

Aliás, hoje em dia defender o nome de Portugal é algo quase impossível. Temos um primeiro-ministro quase Engenheiro envolto numa imensa suspeita de corrupção, um mega-caso de pedofilia em tribunais vai para 4 anos, equipamento militar adquirido de forma obscura, designs militares vendidos a preço da uva mijona (as pistolas Luso), a anual incapacidade de combater eficazmente os incêndios florestais, um défice galopante, criminalidade absurdamente alta e um corpo diplomático apático e absolutamente inepto do que é representar Portugal no mundo.

Não que os outros países não tenham iguais ou piores casos para nosso gáudio. Mas em compensação, existe uma vontade cooperativista de transmitir uma outra imagem mais branda e atractiva dos mesmos. Os italianos têm um primeiríssimo de bradar aos céus, mas nada como uma pizzas, azeites e umas imagens de Florença para fazer esquecer tudo o resto. Os Austríacos podem sempre fazer esquecer casos como o de Josef Fritzl com uma história imperial digna de filmes de Hollywood, trazendo a bela Imperatriz Sissi sempre que as coisas ficam negras (tipo o fornecimento dos Pandur).

Os britânicos contam com cenas aterrorizantes de violência desmedida (ele é facadas entres jovens, assassínios violentos, alcoolismo juvenil crónico…) mas nada como uma família real em pose para compor a coisa, juntando uns Rolls-Royces e Jaguares (que já nem pertencem a capitais britânicos). Mas mesmo assim, lá vão lavando a cara.

Mas… E nós? Que temos nós para lavar a cara, sempre que aparecemos nas noticias? Qual o poder da industria portuguesa? Qual a marca portuguesa que nos pode salvar a conversa? A resposta: Nem UMA!

Ainda me lembrei de alguns exemplos para tentar salvar uma possível conversa de ocasião:

Outro: “Então? Esses incêndios em Portugal?”

Eu: “Oh, isso não é nada…  Está tudo sobre controlo. E mais importante, Portugal vai ter a maior rede de carregamentos de veículos eléctricos na Europa…”

Outro:”Então, mas os carros não vão ser fabricados no Reino Unido?”

Eu:”…mmm… pois… acho que nós, talvez, possamos vir a fazer as baterias…”

Cheguei à fabulosa conclusão que será sempre melhor remeter os valores de Portugal para o Vinho do Porto, para o Eusébio e para o Algarve. Qualquer outro tópico de conversa torna-se-á alvo de chacota. Não temos qualquer referência que nos projecte internacionalmente. E não me venham com a conversa sobre o grupo Jerónimo Martins ou Sonae. Nem eles apoiam o nome de Portugal lá fora. Quantos produtos portugueses podemos ver nas prateleiras da Biedronka (os supermercados da JM) na Polónia?

Existem portugueses por todo o lado do mundo. Somos como as baratas. Estamos mesmo em todo o lado. Mas, ao contrário dos repulsivos insectos, estamos condenados a uma extinção, de morte lenta e em doença prolongada. A de quem nada mais tem a que recorrer, senão à sua história antiga.

Faça-se esforços e compre-se apenas o que é feito em Portugal. Faça-se como o Presidente pede, e goze-se férias em Portugal. Escolham-se empregados portugueses. Passe-se musica portuguesa nas rádios. Produza-se filmes e televisão de qualidade sem medo de falar português. Sejamos um pouco chauvinistas, e por uma vez na vida, pensemos que podemos ser melhor que os outros em algo mais do que no futebol.

Falta-nos, a todos sem excepção, a coragem de admitir isto, e renovar espíritos. De repescar uma coragem que já não temos de ir mais longe, e trazer a bandeira ao peito, mesmo quando não é conveniente. Não basta pendurar as bandeiras à janela quando há jogo da bola.

Façamos como os Russos, e tenha-mo-la sempre à vista. Podem eles ter muitos defeitos, mas tivéssemos nós um terço do amor à pátria que eles têm. Porque ainda não conheci um Russo que não estivesse disposto a morrer pelo país, mas também ainda não conheci um Português que estivesse disposto ao mesmo.

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