O titulo pode parecer ridículo, mas infelizmente, é verdade.

Entrará amanhã em vigor, um acordo entre a União Europeia e a Austrália para remediar tal situação. O mesmo dá MAIS UM ANO para que os nossos amigos em terras de cangurus retirem por completo do mercado as garrafinhas que tenham menção ao néctar do Douro, mas que tenham sido produzidas localmente. “Mais vale tarde que nunca”, pensarão alguns. Mas a verdade é que o “acordo” vai permitir a continuação da utilização das denominações “tawny” e “vintage”. Ou seja, vamos continuar a ver imitações na mesma, apenas com mais imaginação.

A inépcia da União Europeia neste caso (que desde já se esclareça, vai abranger também o champagne e ouros produtos que tomamos por protegidos) não deixa de surpreender. Com cerca de 42.000 (quarenta e dois mil) funcionários a trabalhar para Bruxelas, não haveria forma de estugar o assunto um bocadinho?

Talvez não. Porque muito provavelmente, assim que alguém falou em fechar a torneira dos vinhos generosos ao nossos antípodas (que eles alegremente exportaram para mercados como os EUA, que também não respeitam as denominações de origem…) eles por certo ameaçaram cortar com as importações de vinhos europeus (sempre são uns 70 milhões de euros anuais).

Ora, eu ainda sou daqueles que tem alguma compreensão pela diplomacia económica. Para quem não sabe, é aquilo que os corpos diplomáticos de cada país deveria fazer para sábia e discretamente, defender os interesses da sua nação. Mas parece que isso já foi chão que uvas, e agora ficamos todos expectantes que Bruxelas faça algo sempre que encontramos um caso de conflito de interesses.

Ora, posso eu estar errado, mas parece-me que os Australianos (a par dos Chineses, Americanos, Russos e mais uns poucos) se estão a marimbar para os nossos interesses, e adoptaram, faz algum tempo, uma postura chauvinista e protectora (que defendi no post anterior) de que eles é que sabem, e quem não concordar que vá dar uma voltinha ao arco. E fazem eles muito bem. Afinal, é assim (sempre foi e há-de continuar a ser) que se defende uma economia: sem medo e nos bicos dos pés.

Em negócios só vence quem é destemido e arrisca. E nisto de diplomacia, é um pouco igual. É necessário, em bom português, ter os tomates no sítio. Mas isso é coisa que parece faltar pelo Palácio das Necessidades. Em vez de proteger activamente interesses de Portugueses e de Portugal, o nosso MNE dá boleia ao nosso PM até à Líbia (4 visitas em 4 anos… mais um e torna-se oficialmente em romaria…) para promover negócios que ainda ninguém viu traduzidos em realidade (assinar acordos que dizem que hão-de promover investimento no futuro não conta como resultado…).

Chamem-me de negativista se quiserem, e voltando ao titulo desta prosa, mas a verdade é que não seria necessária tamanha façanha por parte da UE para resolver o assunto do vinho do Porto. E para analogia, basta recuar uns pouco anos atrás.

O vinho do Porto sempre foi um dos nectares mais apreciados em toda a União Soviética. Mas como o original era apenas para alguns privilegiados do sistema, e engenhosa maquina do partido comunista criou, em quase todos as repúblicas que dominava, uma fabricazita de vinho(?) generoso que depois rotulava como “do Porto” e assim satisfazia as sedes de alguns.

Com a Perestroika vem a dissolução da União, e com isso a independência de cada um dos países. Mas velhos hábitos são difíceis de matar, e as fabriquetas lá continuaram a produzir “Porto” que continuava a ser vendido como se do verdadeiro néctar se tratasse. Aliás, ainda hoje é possível perguntar a um qualquer ancião de Leste de onde é originário o vinho do Porto, e receber uma resposta pronta: “da Ucrânia!” (a maior fabrica estava lá localizada e produzia os “Portos” mais caros…).

Mas em 2004 bastou a iniciativa privada de um cidadão luso, para que em menos de 6 meses os 3 estados Bálticos, a Polónia e a Ucrânia ratificassem legislação a proteger as denominações “Porto”, “tawny” e “vintage”, reconhecendo as mesmas apenas às garrafinhas produzidas no leito do Douro. Claro que os produtores locais não gostaram, alguns ligados na altura às máfias de leste (o alcool foi a forma de algumas delas se “legitimarem”), mas todos acabaram por acatar esta nova realidade. Óbvio que a imaginação deu azo a uns “Portus”, mas que são agora arrumados em prateleiras diferentes do genuíno Porto e legendados claramente como “generosos” ou “fortificados”.

Será assim pedir muito ao governo Português que se mexa, e faça o que realmente tem de fazer para proteger e promover as exportações?

Comece por limpar a casa dentro da UE, e deixe de se agarrar aos números da AutoEuropa, Amorim e afins. Crie ajudas reais aos pequenos e médios produtores para colocação dos seus benefícios no mercado que é mais fácil, rápido e barato: a UE!

Deixe-se de esbanjar dinheiro em comissões de acompanhamento, estudos de mercado por especialistas que nunca tiveram de operar nos mercados, visitas empresariais de empresários que não tencionam investir um centavo e de discursos patéticos de como Portugal é caso de sucesso.

Comece-se a investir, e não a gastar, e acima de tudo a ouvir quem tem de batalhar diariamente para colocar e manter uma marca Portuguesa no estrangeiro e ver neles companheiros de batalha, e não potenciais ameaças a carreiras de “tacho”.

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