Os recentes eventos na Noruega apanharam a comunidade Europeia (civil, política, policial, militar e religiosa) de surpresa. Não haverá quase ninguém que não tenha ficado no mínimo chocado, não tanto pelas explosões no centro de Oslo, mas pela frieza com que alguém entra aos tiros por um centro de jovens e apenas é parado quase 80 vidas e 90 minutos depois.

Mas a verdade é, ninguém deveria estar admirado, por mais chocante ou aterrorizante que esta verdade seja. Foi no mínimo inquietante, para um observador atento, como durante o desenrolar dos acontecimentos, todos se apressaram a apontar o dedo à Al-Qaeda, ou aos seus membros mais distantes. Analistas políticos, especialistas em serviços de inteligência e segurança, comentadores de serviço. Não houve ninguém que, durante várias e diversas horas não apontasse o dedo aos inimigos públicos número um. E no final, estavam todos redondamente enganados.

Afinal, o responsável pelos actos horrendos que assistimos na Noruega não era um tal fanático Islâmico exportado por um desaparecido Bin Laden, mas sim um (até à altura) pacato cidadão nórdico. E mais uma vez, os media não se coibiram de trocar rapidamente o rótulo aplicado, e anunciaram Anders Breivik como um neo-nazi. E pelos vistos, a comunidade política e policial assim fica contente. Mas haverá concerteza quem esteja mais atento e preste atenção aos pequenos detalhes.

Anders Breivik será um case-study de como alguém pode, durante 9 anos (NOVE ANOS!!) planear, preparar e executar um plano de ataque com uma eficácia impressionante, quase militar. E pior ainda, deixar como legado um autêntico manual de instruções de como o fazer novamente.

O “Compendium” de Breivik, por agora disponível abertamente na Internet, é um olhar profundo pela mente de alguém que, mais do que preparar um simples atentado, reflecte o estado de espírito de muitos. E é isso que assusta. Aquilo que justamente acusam Anders Breivik de ser, é aquilo que ele, em 1500 paginas, descreve não o ser. O documento, apesar de ser na sua maioria uma amálgama de recortes de outros trabalhos e estudos (por vezes não científicos), não deixa de estar organizado e anotado de uma forma que faz sentido, e justificando de forma inteligente os argumentos usados. Algo que os tais especialistas e comentadores de serviço não o fizeram até agora.

Breivik apela a um sentimento que é agora comum na Europa, ao individualismo nacionalista. Não se trata do mesmo que há mais de 70 anos levou o mundo à Segunda Guerra Mundial. Esse era instigado por um idealismo de raça superior e poder global. O que o “Compendium” apresenta, é quase o oposto, não fossem os métodos propostos para atingir os objectivos tão radicais. Anders Breivik defende um nutrir pelas identidades individuais de cada país (ou tribos como ele os chama). Pela individualização cultural. Pelo desenvolvimento de economias proteccionistas.

Na práctica, o documento defende um desmantelamento da União Europeia como a conhecemos hoje, e um retorno a uma Europa cujas diferentes culturas eram separadas por fronteiras, em que eram notórias as diferenças sócio-culturais, e em que a soberania nacional de cada país nunca fora posta em causa.

Na práctica, aquilo que se queixa Anders Breivik (lendo para além da dissertação sobre o Islão) é o mesmo que hoje muitos Portugueses se queixam. De que capitulámos a um poder soberano invisível de uma Europa e de um mundo que nos deu com uma mão há algum tempo atrás, e que hoje nos retira tudo com a outra. As reacções espontâneas que assistimos após o corte de rating da Républica pela Moody’s é um exemplo disso. Que afinal, esse sentimento está lá no fundo, por mais brandos que sejam os costumes.

Mas até quando serão os Europeus brandos nas respostas? Quantos mais Breivik’s se escondem por essa Europa fora? E agora que existe um Manual de Instruções detalhado de como repetir a dose Norueguesa, quantos deles decidirão meter mãos à obra?

Ao contrário dos Estado Unidos da América, a União Europeia ainda mantém uma séria reserva sobre a protecção de privacidade dos seus cidadãos. E é precisamente isso que a irá impedir de detectar novos aspirantes a mártires pela causa de Breivik.

As respostas não são simples, e haverá a esta altura muito boa gente nos serviços de inteligência e segurança pela Europa fora a tentar perceber como foi possível que tudo isto tenha passado por debaixo dos seus narizes, e pior ainda, sem solução para que não volte a acontecer. E é precisamente aí que o susto se torna assustador…

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